Entendendo a composição do leite materno

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O que a ciência nos diz a respeito do padrão ouro?​

 O leite materno humano é uma matriz alimentar viva e complexa, que provê todos os nutrientes necessários ao lactente durante os primeiros 6 meses de vida. Além dos macronutrientes, micronutrientes e da água, que compõem a base do leite materno, ele ainda oferece moléculas e compostos bioativos diversos que completam os benefícios deste alimento, pois protegem o recém nascido de infecções e inflamações, contribuindo para a maturação do sistema imune, desenvolvimento orgânico adequado e apropriada colonização da microbiota intestinal (1,2).

O componente mais abundante no leite humano, depois da água, é a lactose (7%), seguida das gorduras (4%), dos oligossacarídeos (1%) e das proteínas (0.8%) (3). Contudo, a composição do leite materno é dinâmica e pode variar entre diferentes mães, entre diferentes mamadas de uma mesma mãe e, ainda, ao longo de uma mesma mamada e do período de lactação como um todo. Além disso, alterações no clima, na região geográfica e nas características genéticas maternas também impactam na composição do leite humano (4). Acredita-se que esta variação multidimensional observada seja uma adaptação natural, como forma de atender às necessidades do lactente, as quais estão em constante - e rápida - mudança (4-6).

LACTOSE NO LEITE MATERNO: ENERGIA E EFEITO BIFIDOGÊNICO

Ao comparar o leite materno humano com os de outros mamíferos, observa-se um padrão único quanto à concentração de lactose (7%) (7). Este dissacarídeo é o principal carboidrato encontrado no leite materno e contribui com 40% do valor calórico do alimento (7,8). Porém, não apenas o fornecimento energético relevante deve ser valorizado mas também o papel positivo que a lactose parece desempenhar em outros aspectos da fisiologia do lactente, tais como: a participação na formação da microbiota intestinal saudável pelo favorecimento do aumento no número de microrganismos probióticos (efeito bifidogênico) quando este açúcar atinge porções distais do intestino de forma intacta, disponível para ser fermentado, e a  contribuição deste açúcar para a adequada absorção de cálcio através do aumento da biodisponibilidade deste micronutriente (9).

LEITE MATERNO COMO UM ALIMENTO VIVO E O PAPEL DOS OLIGOSSACARÍDEOS

O leite materno é considerado uma matriz alimentar viva, não apenas por ser um alimento em constante variação e adequação às necessidades do lactente, mas também por conter microorganismos vivos (probióticos) e oligossacarídeos com efeito prebiótico, ambos interagindo de forma simbiótica e desempenhando um amplo espectro de mecanismos de proteção ao lactente, com melhora da imunidade intestinal e sistêmica (10).

Os oligossacarídeos do leite materno configuram o terceiro composto mais abundante neste alimento, depois da lactose e das gorduras, podendo somar até 1% da composição total do leite, a depender do estágio de lactação e de fatores genéticos maternos (10). A diversidade no tipo, tamanho da cadeia molecular e função dos oligossacarídeos do leite materno é inigualável e está bem descrita na literatura (11). Quanto à estrutura química destes hidratos de carbono, ela  não é digerível pelas enzimas do trato gastrointestinal humano e, portanto, eles chegam intactos ao cólon, onde atuam como prebióticos, ou seja, são fermentados principalmente por espécies de bifidobactérias e, como resultado da fermentação, ocorre o fornecimento de carbono (energia) para o metabolismo dos microorganismos que populam a microbiota intestinal, promovendo o efeito bifidogênico (12). Além disso, os oligossacarídeos promovem benefícios à imunidade local do intestino, se ligando profilaticamente a bactérias, vírus e toxinas, estimulando o fortalecimento do sistema imune local e melhorando a barreira intestinal através do estímulo à expressão de proteínas envolvidas na integridade das junções de oclusão entre os enterócitos (13); e também podem contribuir para o fortalecimento da imunidade sistêmica do lactente (13,14).

PROTEÍNAS DO LEITE MATERNO: INTACTAS E DIVERSAS

O leite materno contém centenas de proteínas intactas (15). Dentre elas, existem duas classes principais: a da caseína e das proteínas do soro do leite. A proporção entre elas varia consideravelmente, sendo que a relação entre proteínas do soro do leite e caseína se altera de 90/10 no colostro para 60/40 no leite maduro, atendendo às necessidades específicas de cada fase do lactente. As proteínas do soro do leite podem ser divididas em algumas sub-frações: α-lactoalbumina, lactoferrina, IgA, osteopontina e lisozima. Além disso, peptídeos bioativos formados durante a digestão da caseína e das proteínas do soro possuem efeito bifidogênico, adicionando ainda mais propriedades às proteínas presentes no leite materno (16).

As principais funções deste macronutriente na fisiologia do lactente incluem o fornecimento de aminoácidos para as reações metabólicas e desenvolvimento estrutural, melhora na biodisponibilidade de micronutrientes, como vitaminas e minerais, fortalecimento do sistema imune, além de contribuir no processo de aprendizado e desenvolvimento cognitivo (16).

GORDURAS NO LEITE MATERNO COMO PRINCIPAL FONTE ENERGÉTICA E COMPONENTE ESSENCIAL AO DESENVOLVIMENTO GLOBAL

O papel das gorduras no leite materno também é bastante amplo e complexo. Elas oferecem a maior fração energética deste alimento, contribuindo com aproximadamente 50% do total calórico, auxiliam no desenvolvimento do sistema nervoso central e da cognição, participam da composição estrutural das membranas celulares, desempenham papel importante na função gastrointestinal e prevenção de cólicas no recém nascido, favorecem a absorção de micronutrientes e compostos lipossolúveis, além de garantirem sabor e aroma ao leite (5-7).

Os triacilgliceróis são a forma predominante de gordura no leite humano (98%), com propriedades bastante diversas, variando de acordo com a composição de ácidos graxos acoplados à cadeira de glicerol (17). Os ácido graxos presentes em maior concentração no leite materno são os saturados, representados majoritariamente pelo ácido palmítico, e os monoinsaturados, especialmente o ácido oleico (17-19). Além destes em maiores proporções, o leite materno também contém os ácidos graxos essenciais linoleico e alfa linolênico, precursores dos ácidos graxos poliinsaturados de cadeia longa (LC-PUFAS), como o ácido araquidônico (ARA) e docosahexaenóico (DHA). Além dos triacilgliceróis, 0.2 a 2.0% do total de gorduras do leite humano estão presentes na forma de fosfolipídios, os quais apresentam superior incorporação nas membranas celulares e desempenham benefícios ao crescimento, acuidade visual e desenvolvimento neurológico (19).

O ácido palmítico se destaca como um componente bastante relevante no leite materno humano, especialmente na conformação β-2 em que é conhecido como β-palmitato e desempenha funções benéficas ao lactente, influenciando positivamente o metabolismo lipídico, aumentando a absorção de cálcio, melhorando a qualidade da matriz óssea e melhorando a consistência das fezes, além do impacto positivo no desenvolvimento da microbiota intestinal (20). Já os ácidos graxos DHA e ARA, apesar de presentes em menor proporção, são componentes indispensáveis na composição estrutural das membranas celulares, sendo incorporados em grandes proporções no cérebro e na retina, especialmente nas fases iniciais do desenvolvimento, além de participarem de mecanismos de sinalização celular e expressão gênica (21).

O perfil de ácidos graxos no leite materno varia ao longo da lactação, principalmente em resposta a alterações na dieta materna e, particularmente, no que diz respeito aos LC-PUFAS (22). As variações na concentração e no tipo de gorduras podem ser bastante significativas, inclusive ao longo de uma mesma mamada, em que o leite posterior (produzido mais ao final da mamada) concentra 2 a 3 vezes mais gordura que a porção produzida inicialmente (23).

MICRONUTRIENTES DO LEITE MATERNO: COMPLETO, PORÉM VARIÁVEL

O leite materno também é bastante completo em micronutrientes. Os principais minerais que o constituem são o sódio, potássio, cálcio, magnésio, fósforo e cloro. Já o ferro, cobre e zinco variam de forma considerável e são mais dependentes das concentrações presentes na dieta materna. Quanto às vitaminas, todas, com exceção da vitamina K, são encontradas no leite humano, valendo a consideração de que as vitaminas hidrossolúveis, especialmente do complexo B, e a vitamina D variam consideravelmente de acordo com a dieta materna, estação do ano e localização geográfica (7,24). Apesar de os micronutrientes representarem menos de 0.2% dos componentes presentes no leite materno, as funções por eles desempenhadas são inúmeras e cruciais para o adequado crescimento e desenvolvimento do lactente, desde o desenvolvimento e maturação óssea, com contribuição especial do cálcio, fósforo e vitamina D, até o fortalecimento do sistema imune, com participação ativa das vitaminas A e C e do zinco. 

Finalmente, é possível demonstrar que o leite humano é um alimento nutricionalmente completo para o lactente até os 6 meses de vida e, apesar de os nutrientes serem categorizados de acordo com as principais características químicas e funções, eles não devem ser entendidos no leite materno como componentes que atuam de forma isolada, mas sim como parte de uma matriz alimentar viva e complexa, perfeitamente interconectada entre si e com a fisiologia e demandas do lactente (6).

 

REFERÊNCIAS

 

1. Lönnerdal B. Breast milk: A truly functional food. Nutrition. 2000;16:509–511.

2. Field CJ. The immunological components of human milk and their effect of immune development in infants. J. Nutr. 2005;135:1–4.

3. Zivkovic AM, German JB, Lebrilla CB, Mills DA. Human milk glycobiome and its impact on the infant gastrointestinal microbiota. PNAS. 2011;108(1):4653–58.

4. Michaelsen KF, Skafte L, Badsberg JH, Jorgensen M. Variation in macronutrients in human bank milk: Influencing factors and implications for human-milk banking. J. Pediatr. Gastroenterol. Nutr. 1990;11:229–239.

5. Sauer CW, Boutin MA, Kim JH. Wide Variability in Caloric Density of Expressed Human Milk Can Lead to Major Underestimation or Overestimation of Nutrient Content. J. Hum. Lact. 2017;33:341–350.

6. Butts CA, Hedderley DI, Herath TD, et al. Human Milk Composition and Dietary Intakes of Breastfeeding Women of Different Ethnicity from the Manawatu-Wanganui Region of New Zealand. Nutrients. 2018;10(9):1231.

7. Ballard O, Morrow AL. Human milk composition: nutrients and bioactive factors. Pediatr Clin North Am. 2013;60(1):49

8. Delaveau, P. Le lactose dans le lait; hypothese sur son importance biologique. Ann. Pharm. Fr. 2002;61:340–342.

9. Cochet B, Jung A, Griessen M, Bartholdi P, Schaller P, Donath A. Effects of lactose on intestinal calcium absorption in normal and lactase-deficient subjects. Gastroenterology. 1983;84:935-40.

10. Newburg DS, Ruiz-Palacios GM, Morrow AL. Human milk glycans protect infants against enteric pathogens. Annual review of nutrition. 2005;25:37–58.

11. Smilowitz JT, Lebrilla CB, Mills DA, German JB, Freeman SL. Breast milk oligosaccharides: structure-function relationships in the neonate. Annu Rev Nutr. 2014;34:143-169.

12. Coppa GV, Gabrielli O, Pierani P, Catassi C, Carlucci A, Giorgi PL. Changes in carbohydrate composition in human milk over 4 months of lactation. Pediatrics. 1993;91:637–641.

13. Morrow A, Ruiz-Palacios G, Altaye M, Jiang X, Guerrero M, Meinzen-Derr J, Farkas T, Chaturvedi P, Pickering L, Newburg D. Human milk oligosaccharide blood group epitopes and innate immune protection against campylobacter and calicivirus diarrhea in breastfed infants. In Protecting Infants through Human Milk. Springer. 2004;443–446.

14. Newburg, D.S.; Walker, W.A. Protection of the neonate by the innate immune system of developing gut and of human milk. Pediatr. Res. 2007;61:2–8.

15. Verd S, Ginovart G, Calvo J, Ponce-Taylor J, Gaya A. Variation in the Protein Composition of Human Milk during Extended Lactation: A Narrative Review. Nutrients. 2018;10(8):1124.

16. Donovan SM, German JB, Lönnerdal B, Lucas A (eds): Human Milk: Composition, Clinical Benefits and Future Opportunities. Nestlé Nutr Inst Workshop Ser. Nestlé Nutrition Institute, Switzerland/S. Karger AG. Basel. 2019;90:93-101.

17. Koletzko B. Human Milk Lipids. Ann Nutr Metab. 2016;69 Suppl 2:28-40.

18. Innis SM, Dyer R, Nelson CM. Evidence that palmitic acid is absorbed as sn-2 monoacylglycerol from human milk by breast-fed infants. Lipids. 1994;29:541–5.

19. Lopez-Lopez A, Castellote-Bargallo AI, Campoy-Folgoso C, Rivero-Urgel M, Tormo-Carnice R, Infante-Pina D, Lopez-Sabater MC. The influence of dietary palmitic acid triglyceride position on the fatty acid, calcium and magnesium contents of at term new born faeces. Early Hum Dev. 2001;65(Suppl):83–94.

20. Havlicekova Z, Jesenak M, Banovcin P, Kuchta M. Beta-palmitate - a natural component of human milk in supplemental milk formulas. Nutr J. 2016;15:28.

21. Hahn-Holbrook J, Fish A, Glynn LM. Human Milk Omega-3 Fatty Acid Composition is Associated with Infant Temperament. Nutrients. 2019;11(12):2964.

22. Valentine CJ, Morrow G, Fernandez S, Gulati P, Bartholomew D, Long D, Welty SE, Morrow AL, Rogers LK. Docosahexaenoic Acid and Amino Acid Contents in Pasteurized Donor Milk are Low for Preterm Infants. The Journal of pediatrics. 2010;157(6):906–910.

23. Saarela T, Kokkonen J, Koivisto M. Macronutrient and energy contents of human milk fractions during the first six months of lactation. Acta Paediatr. 2005;94(9):1176–1181.

24. Greer FR. Do breastfed infants need supplemental vitamins? Pediatric clinics of North America. 2001;48(2):415–423.

25. Keikha M, Bahreynian M, Saleki M, Kelishadi R. Macro- and Micronutrients of Human Milk Composition: Are They Related to Maternal Diet? A Comprehensive Systematic Review. Breastfeed Med. 2017 Nov;12(9):517-527.



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